Existe uma ideia confortável, porém muito incompleta, que muitos de nós carregamos: saber fazer bem as coisas é suficiente. Principalmente no mundo académico, é fácil cair na falácia de que boas notas, trabalhos bem feitos e domínio de matérias é suficiente e o resto se alinha.
Seja na universidade, no trabalho ou até no dia a dia, é normal acreditar que saber o que estamos a fazer chega, no entanto, há sempre aqueles momentos - como trabalhos de grupo, entrevistas de emprego ou até jantares com amigos e conversas difíceis - que nos fazem aperceber que não basta só saber, também a forma como lidamos com pessoas e situações é muito importante.
Existe um conjunto de competências que até a uma altura relativamente recente, não recebia a atenção que merece, mas que está presente em quase todas as interações: na forma como nos comunicamos, como reagimos à pressão, como nos adaptamos quando as coisas não correm como esperado, e por aí vai… Chamamos-lhes de soft skills. E apesar do nome suave, o seu impacto é tudo menos leve.
A distinção é conhecida, mas não muito interiorizada. Hard skills são habilidades técnicas adquiridas através de formação, cursos e experiência profissional - são previsíveis, ensináveis e avaliáveis. Por sua vez, as soft skills são habilidades interpessoais e subjetivas, e estão relacionadas com a personalidade e o comportamento: comunicar com clareza, liderança e colaboração, gerir conflitos, são todos ótimos exemplos destas habilidades. As primeiras são construídas com alguma previsibilidade, mas as segundas constroem-se com experiências, e, muitas vezes, com algum desconforto.
O mais curioso é que as soft skills têm vindo a pesar mais. Em áreas, tais como as da nossa faculdade, onde o conhecimento mais técnico é bastante semelhante entre estudantes, o fator diferenciador raramente está no currículo – está na forma como alguém se expressa, gere o tempo sob pressão ou como reage a um erro – em coisas que várias vezes nos passam ao lado.
Isto torna-se ainda mais evidente num mundo em evolução contínua, onde o mercado de trabalho também acaba por ser afetado por uma constante transformação. A rapidez com que se desenvolvem novas técnicas ou se deixam de usar outras, contrasta muito com a estabilidade das competências humanas – estas não se substituem facilmente, e por isso mesmo ganham valor.
Podemos dizer que o ensino superior continua, em grande medida, focado mais na dimensão técnica – até porque é mais fácil ensinar e avaliar aquilo que é objetivo. Mas isso não invalida o facto de que muitas competências mais críticas para o futuro profissional de estudantes acabam por ficar fora do foco direto.
O mais curioso é que não nos faltam oportunidades para desenvolver estas competências. Elas estão por todo o lado, só que raramente são apresentadas como tal. Num trabalho de grupo onde alguém tem de assumir liderança, numa apresentação em que é preciso parecer mais confiante do que nos sentimos ou também, por exemplo, numa associação académica onde gerir pessoas rapidamente deixa de ser teórico.
Talvez é por isso que muitos estudantes terminam o curso com um currículo sólido, mas com dificuldades em explicar quem são para além das notas. Sabem o que aprenderam, mas não necessariamente como trabalham, como comunicam, como reagem. E essas são, cada vez mais, as perguntas que importam. E talvez aqui esteja o verdadeiro ponto cego: tratamos estas competências como um “extra” - algo que se desenvolve mais tarde, quando já houver tempo, experiência, contexto… No entanto, são estas competências que dão contexto ao que sabemos e tornam o conhecimento realmente útil.
Nem sempre há uma forma clara de as avaliar ou medir. Mas, de forma quase inevitável, acabam por influenciar a forma como somos percebidos e as oportunidades que surgem. E, quando isso acontece, já não se trata apenas do que sabemos — mas de como escolhemos usar tudo o que aprendemos.
Autoria de: Enzo Komarov, membro do departamento de Research & Development