quarta-feira, 29 de abril de 2026

Liberdade digital: até onde vai o sonho do teletrabalho?

Introdução

    Quem não quer trabalhar com vista para a praia em Bali? Poder ter flexibilidade de horários para dar mais tempo à família? Ou até mesmo poder viajar por todos os países no mundo sem o problema do escritório num local fixo? Diria que este é o sonho idealizado por muitas pessoas hoje em dia, desde jovens que acreditam que o trabalho é uma 'prisão', a pais e mães que querem dedicar mais tempo aos filhos para viver mais tranquilamente.

Dados estatísticos

    Cada vez mais nos dias de hoje o trabalho remoto tem vindo a crescer. Essencialmente desde a pandemia, em 2020, foi algo bastante usado para preservar a saúde comunitária. Desde então muitas empresas mantiveram até agora esta prática. 

    Em 2025, foi realizado um estudo pelo Gi Group em parceria com a Worx, que destaca que 21.8% da população portuguesa empregada trabalha à distância (1,15 milhões de portugueses). Dentro destas pessoas, 21.9% trabalha exclusivamente em casa, enquanto 41.7% em regime híbrido (uns dias apenas). Evidencia-se o facto de 56% dos trabalhadores preferir a opção híbrida, pois permite uma maior flexibilidade de horários.

Vantagens

    Sem dúvida que a principal vantagem é a possibilidade de trabalhar a partir de qualquer parte do mundo, quase como se estivesse de férias. Claro que sem o stress habitual da rotina nas cidades, a produtividade aumenta bastante. Com a sensação de esgotamento diário e rotineiro é muito mais difícil manter o foco no trabalho. Inclusive, com maior flexibilidade de horários permite um melhor desempenho de tarefas, podendo construir o próprio horário conforme for mais prático. Por fim, a preocupação com o meio ambiente também é algo muito debatido e, sem as deslocações diárias ao escritório, reduzem-se as emissões de carbono.

Desvantagens

    Como nem tudo é perfeito, o trabalho remoto também é visto como prejudicial para a produtividade dos trabalhadores, o que acaba por ser um ponto ambíguo  que carece da análise individual de cada um. Com isto, o trabalho em equipa é muito afetado, provocando uma diminuição do sentimento de pertença dos colaboradores, também como maior dificuldade na integração de novos trabalhadores. Assim, também se verifica um enfraquecimento da cultura organizacional que é mais dificilmente passada remotamente 

Conclusão

    Portanto, se o trabalho remoto é algo que gostarias de ter presente na tua vida, acredita que há muitas empresas nos dias de hoje a fazê-lo e de maneiras diferentes. 

    Procura pela oportunidade que mais se adequa a ti!


Fontes

Executive Digest(2025, Outubro 14). Teletrabalho em números: 1,15 milhões de portugueses trabalham à distância. O que mudou desde a pandemia e o que ainda vem aí?. https://executivedigest.sapo.pt/teletrabalho-em-numeros-115-milhoes-de-portugueses-trabalham-a-distancia-o-que-mudou-desde-a-pandemia-e-o-que-ainda-vem-ai/

Robert Walters(2023, Junho 12). 5 razões pelas quais as empresas devem apoiar o trabalho remoto. https://www.robertwalters.pt/insights/conselhos-de-contratacao/blog/5-razoes-implementar-trabalho-remoto.html


Autoria de: Mariana Oliveira, membro do departamento de Research & Development

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Desenhado para Te Prender

Imagina que acordas de manhã e, antes de sequer pores os pés no chão, já tens o telemóvel na mão a fazer scroll. Trinta segundos aqui, um minuto ali, e de repente passaram duas horas. Não é falta de força de vontade, é engenharia. As plataformas foram desenhadas ao milímetro para prender o teu cérebro num loop de dopamina do qual é quase impossível sair. A geração que cresceu com o TikTok pode não conseguir terminar um livro, uma conversa ou um pensamento. E o pior? Ninguém percebeu quando isso aconteceu.

Atualmente, cerca de 63,9% da população mundial usa redes sociais, com uma média de 2 horas e 21 minutos de utilização diária, o equivalente a 14% de todo o tempo que passamos acordados. Sem nos apercebermos, com apenas 2 horas por dia perdemos cerca de 5 anos de vida. Com 4 horas, falamos de 10 anos. Com 8 horas diárias, falamos de 20 anos inteiros. Não de uma vez, não de forma visível, mas roubados aos poucos, 30 segundos de cada vez, enquanto fazes scroll. É uma realidade perturbadora, e que se torna cada vez mais comum.

E a culpa é nossa? A resposta é ambígua. Somos nós que tomamos as decisões no fim do dia, mas as redes sociais foram desenhadas precisamente para tornar essas decisões impossíveis de tomar livremente. A máquina funciona através de vários mecanismos calculados: o scroll infinito aliado ao algoritmo de retenção entrega conteúdo personalizado sem fim; as notificações criam uma sensação de urgência constante; os likes, comentários, novas trends e publicações de influencers mantêm-nos presos à necessidade de saber tudo agora. Transformaram seguidores e likes numa moeda de validação social vazia, onde o valor de uma pessoa passou a ser medido por números num ecrã em vez de por quem realmente é.

Mas o pior nem é o tempo perdido. São os danos reais causados à saúde mental e cognitiva. Em 2004, a capacidade de foco humana era de cerca de 2 minutos e 30 segundos. Em 2021, caiu para 47 segundos. Em 2026, o número deverá ser ainda mais reduzido. Problemas de concentração, ansiedade, depressão, baixa autoestima, isolamento social, perda de prazer em atividades antes prazerosas e dificuldade na tomada de decisões simples são realidades que já consideramos devastadoras hoje. Daqui a alguns anos podem ser apocalípticas: uma sociedade com distúrbios mentais generalizados, incapaz de produzir, de se relacionar e de funcionar de forma minimamente saudável.

As novas gerações estão cada vez mais presas à tecnologia, e a crescente vaga de inteligência artificial só veio agravar a situação. A capacidade de estruturar o raciocínio e o pensamento crítico está a diminuir de forma acelerada. Estamos a caminhar para uma sociedade que não pensa, que reage por impulso e que vive completamente controlada por sistemas que nunca foram desenhados para o seu bem.

A boa notícia é que o cérebro é plástico, adapta-se, e o que foi treinado para um lado pode ser treinado para o outro. A higiene digital começa nos pequenos passos: desativar notificações não essenciais, colocar o telemóvel fora do campo de visão, ativar o modo de escala de cinzentos e definir limites de tempo de ecrã. A nível pessoal, técnicas como o método Pomodoro, o exercício regular, o sono adequado e a meditação são ferramentas comprovadas para recuperar o controlo. E a solução mais complexa, mas talvez a mais urgente: uma reestruturação profunda do sistema de ensino que prepare os jovens para desenvolver as capacidades cognitivas que de outra forma perderão para sempre.

Deixo no final deste artigo um apelo. Não como escritor, mas como membro desta sociedade: o que está em jogo não é só a nossa produtividade nem o nosso tempo livre. É a nossa capacidade de pensar, de sentir e de ser humanos. E se não agirmos agora, coletivamente e com urgência, não vamos perceber o momento exato em que deixámos de conseguir fazê-lo.

Referências

1.      Baumgartner, S. E., van der Schuur, W. A., Lemmens, J. S., & te Poel, F. (2025). Blocking mobile internet on smartphones improves sustained attention. PNAS Nexus, 4(2). https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgaf017

2.      Kemp, S. (2025, fevereiro 4). Digital 2025: Global overview report. DataReportal. https://datareportal.com/reports/digital-2025-global-overview-report

3.      Mark, G. (2023, fevereiro). Why our attention spans are shrinking [Podcast episode]. In K. Mills (Host), Speaking of Psychology. American Psychological Association. https://www.apa.org/news/podcasts/speaking-of-psychology/attention-spans

4.      Observador. (2026, fevereiro 15). Investigação alerta para impacto de vídeos curtos no desenvolvimento cognitivo de crianças. https://observador.pt/2026/02/15/investigacao-alerta-para-impacto-de-videos-curtos-no-desenvolvimento-cognitivo-de-criancas

5.      Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain drain: The mere presence of one's own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140–154. https://doi.org/10.1086/691462

Autoria de: Tomás Antunes, coordenador do departamento de Marketing 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Impacto da Saúde Mental na Produtividade

          E se o maior inimigo da produtividade não fosse a distração, a falta de organização ou a gestão do tempo, mas sim a saúde mental? Nos últimos anos, as perturbações mentais dispararam a nível global, afetando hoje 1 em cada 7 pessoas no mundo. Em Portugal, metade da população reporta estar em stress elevado. Os dados são claros: a saúde mental não é um tema de bem-estar pessoal isolado, é um fator com impacto direto na forma como trabalhamos, produzimos e vivemos.

O estado em que estamos


Segundo a OMS, mais de um milhar de milhão de pessoas no mundo vivem com perturbações mentais. A ansiedade e a depressão são as condições mais prevalentes, e as mulheres são as mais afetadas. Nos países de alto rendimento, mais de 50% das pessoas que precisam de cuidados de saúde mental recebem-nos, contra apenas 10% nos países de baixo rendimento. Este dado é crucial para perceber onde está o verdadeiro problema: não é só a prevalência, é a falta de acesso ao tratamento.


O que está a causar isto?


O uso excessivo de redes sociais é um dos fatores mais documentados. Jovens que passam mais de 3 horas diárias em plataformas digitais têm um risco 30% maior de desenvolver depressão, e o excesso de redes sociais está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens. O ambiente digital cria comparação social constante, expõe a padrões de vida irreais, potencia o cyberbullying e gera dependência dopaminérgica através de notificações, scrolls e likes, com impacto direto na qualidade do sono.

O cérebro humano é biologicamente programado para conexão social, mas a vida moderna tem empurrado as pessoas para dinâmicas cada vez mais individualistas. Vínculos superficiais e relações exclusivamente digitais substituem a interação presencial, contribuindo diretamente para os níveis crescentes de ansiedade e depressão.

O stress crónico é outro fator central. Pressão financeira, excesso de exigência profissional e incerteza sobre o futuro são tensões para as quais o cérebro humano não está preparado para sustentar de forma contínua, sem consequências.

Vale ainda notar um paradoxo relevante: a crescente patologização de emoções normais pode ter o efeito inverso ao esperado. A ansiedade é uma resposta humana natural, problemática apenas quando persistente e não tratada. Medicação sem acompanhamento não resolve a causa. Perceber o que está por baixo do sintoma é insubstituível, e esse passo continua a ser negligenciado em larga escala.


O custo económico


O impacto na economia é inegável. A OMS estima que se perdem 12 mil milhões de dias de trabalho por ano por causa da depressão e ansiedadecom um custo de 1 bilião de dólares em produtividade perdida anualmente.

Há dois fenómenos a distinguir: absentismo e presentismo. Trabalhadores com saúde mental fraca faltam quase 5 vezes mais do que os restantes colegas, o que só nos EUA representa cerca de 47,6 mil milhões de dólares por ano. O presentismo, porém, é o fenómeno mais subestimado: um colaborador com depressão não tratada apresenta uma redução de 35% na produtividade, e estudos indicam que o presentismo pode custar até 10 vezes mais do que o absentismo, precisamente porque é invisível.

Os próprios trabalhadores reconhecem o impacto: 34% sentiram a sua produtividade prejudicada pela saúde mental no último ano, 48% já abandonaram ou consideraram abandonar um emprego por razões psicológicas, e 60% reportam sentir-se emocionalmente desligados do trabalho.


A solução também tem números


Resolver este problema não é economicamente inviável, bem pelo contrário. Trabalhadores psicologicamente saudáveis são, em média, 13% mais produtivos. A mudança começa em dois níveis: individual e organizacional. A nível pessoal, práticas como exercício regular, sono adequado, limitação do tempo de ecrã e procura de apoio psicológico preventivo, e não apenas em crise, têm impacto direto e documentado no bem-estar mental. A nível organizacional, as empresas têm ferramentas concretas ao seu dispor: programas de apoio psicológico, flexibilidade laboral, formação de líderes para identificar sinais de burnout, e uma cultura que normalize falar de saúde mental sem estigma. O ponto crítico é a prevenção. Tratar o problema depois de instalado é sempre mais caro, mais longo e menos eficaz do que criar as condições para que não apareça.

A OMS estima um ROI de 400%: cada dólar investido em saúde mental gera 4 dólares de retorno. Um estudo da Deloitte com empregadores canadianos encontrou retornos médios de 1,62 dólares por cada dólar investido, com casos a ultrapassar os 10 dólares de retorno.

Estes dados são ainda provavelmente subestimados, pois medem sobretudo impactos individuais e raramente captam os efeitos em cadeia sobre equipas, cultura organizacional e resultados coletivos.

A saúde mental pode ser, nos tempos que correm, o instrumento de produtividade mais subutilizado nas organizações. Prestar-lhe mais atenção não é só uma questão de bem-estar. É também uma das decisões mais racionais que uma empresa ou um indivíduo pode tomar.

 

Referências


1. World Health Organization. (2024). Mental health atwork. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work
2. Pan American Health Organization. (2025). More than one billion people living with mental healthconditions. https://www.paho.org/pt/noticias/2-9-2025-mais-um-bilhao-pessoas-vivem-com-condicoes-saude-mental-servicos-precisam
3. Marktest & Medicare. (2025). Saúde Mental Portugal 2025. https://www.medicare.pt/mais-saude/prevencao/estudo-marktest-medicare-saude-mental-2025
4. Instituto Cactus & AtlasIntel, citado por Veja Saúde. (2024). Redes sociais e ansiedade em jovens. https://veja.abril.com.br/saude/excesso-de-redes-sociais-esta-associado-a-45-dos-casos-de-ansiedade-em-jovens
5. Witters, D., & Agrawal, S. (2022). The economic costof poor employee mental health. Gallup. https://www.gallup.com/workplace/404174/economic-cost-poor-employee-mental-health.aspx
6. Meditopia for Work. (2026). Workplace mental healthstatistics for 2026. https://meditopia.com/en/forwork/articles/workplace-mental-health-statistics
7. McQuillen, B. (2026). Mental health benefits ROIIgnite HCM. https://www.ignitehcm.com/blog/mental-health-benefits-roi-measuring-the-business-impact-of-wellness-investment
8. National Alliance on Mental Illness. (2024). 2024 NAMI workplace mental health poll. https://www.nami.org/research/publications-reports/survey-reports/the-2024-nami-workplace-mental-health-poll
9. Spill. (2025). Workplace mental health statistics2025. https://www.spill.chat/mental-health-statistics/workplace-mental-health-statistics
10. Quest Behavioral Health. (2025). Mental healthaffects workThe productivity connection. https://questbehavioralhealth.com/mental-health-and-work-productivity/

Autoria de: Tomás Antunes, coordenador do departamento de Marketing 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Contabilidade do Futuro: Entre Tecnologia, Estratégia e Responsabilidade

Falar sobre o futuro da contabilidade é falar sobre muito mais do que lançamentos, demonstrações financeiras e cumprimento de normas. A profissão está no meio de uma transformação impulsionada por digitalização, inteligência artificial, novas exigências de transparência e pela pressão para que empresas assumam responsabilidade ambiental e social. Para quem está na universidade hoje, contabilidade deixa de ser apenas a “linguagem dos negócios” e passa a ser também a infraestrutura de confiança de uma economia cada vez mais digital, conectada e monitorada em tempo real.

Diversas entidades de referência como a IFAC (International Federation of Accountants), a ACCA (Association of Chartered Certified Accountants) e grandes consultoras como Deloitte, EY, KPMG e PwC convergem em uma mensagem: o papel do contador está mudando de registrador e “guardião do compliance” para analista de dados, parceiro de negócios e conselheiro estratégico. Em vez de gastar a maior parte do tempo em tarefas manuais e repetitivas, o profissional de contabilidade passa a atuar cada vez mais em interpretação de informações, avaliação de riscos, desenho de controles e suporte à tomada de decisão.

Accountant 2.0

A IFAC, por exemplo, discute a necessidade de “desagregar” contabilidade da figura tradicional do contador e repensar o modelo da profissão em um contexto em que automação, globalização e novas expectativas da sociedade exigem outras formas de atuação. Já relatórios da Deloitte sobre o futuro da profissão chegam a falar em um “Accountant 2.0”: alguém que domina tecnologia, dialoga com áreas de operações, estratégia e TI, e ajuda a traduzir o impacto contábil de decisões de negócio complexas. Esse movimento não elimina as bases técnicas da contabilidade, mas amplia o escopo e a responsabilidade do profissional.

Contabilidade e o Uso da Tecnologia

Um dos eixos mais visíveis dessa mudança é a combinação entre automação e inteligência artificial. Softwares de gestão, Enterprise Resource Planning em nuvem (para integração de dados de diferentes áreas), Robotic Process Automation (automação de processos) e ferramentas de leitura automática de documentos já assumem, em muitas empresas, atividades como conferência de notas fiscais, reconciliação de contas, classificação básica de lançamentos e etapas do fecho contábil. Pesquisas recentes destacam que a adoção de IA e automação na contabilidade tende a crescer rapidamente, mudando o tempo despendido em tarefas operacionais e abrindo espaço para funções mais analíticas e consultivas.

Relatórios da ACCA sobre tecnologia e futuro da contabilidade mostram que profissionais ao redor do mundo já percebem a digitalização como inevitável e que, ao mesmo tempo, isso representa também uma oportunidade para reposicionar a profissão. À medida que rotinas de compliance e reporte são automatizadas, cresce a demanda por contadores capazes de desenhar indicadores, analisar tendências, identificar riscos emergentes, atuando como um generalista de visão ampla, capazes de detectar problemas e encaminhar soluções apropriadas.

Paralelamente, o próprio modelo de reporte corporativo está mudando. Há uma tendência clara em direção a informações mais frequentes, digitais e comparáveis entre países: com taxonomias eletrônicas, relatórios em formato estruturado e maior integração entre dados contábeis, fiscais e regulatórios. Pesquisas da Universidade de Oxford sobre o futuro do relato corporativo e documentos da IFRS Foundation mostram como a criação do International Sustainability Standards Board (ISSB) e a publicação dos padrões IFRS S1 e S2 estão reformulando o que significa “prestar contas” ao mercado: já não se trata apenas de números financeiros tradicionais, mas também de riscos e oportunidades ligados à sustentabilidade.

Contabilidade e Sustentabilidade

Nesse novo cenário, contabilidade e sustentabilidade tornam-se cada vez mais interligadas. A agenda de relato climático e de riscos ESG (ambientais, sociais e de governança) avançou de forma significativa na última década, com um número crescente de empresas divulgando dados de emissões, metas de transição e impactos socioambientais. Embora haja debates políticos sobre o alcance dessas normas – inclusive tensões entre reguladores de diferentes jurisdições –o movimento geral aponta para maior integração entre informações financeiras e não financeiras. Para os profissionais de contabilidade, isso significa aprender a lidar com métricas que vão além de lucro, patrimônio e fluxo de caixa, incorporando indicadores de clima, capital humano e cadeias de valor.

Fragmentação Regulatória Global

Ao mesmo tempo, relatórios de organismos internacionais e da própria IFRS Foundation mostram que a convergência de normas contábeis e de sustentabilidade é também uma forma de tentar reduzir fragmentação regulatória e custos de reporte em um sistema financeiro global cada vez mais interconectado, mas sujeito a pressões políticas. O contador passa a atuar num ambiente em que precisa entender tanto IFRS quanto as novas normas de divulgação de sustentabilidade, além de regulamentos locais, exigências de supervisores de mercado e expectativas de investidores institucionais.

Além da tecnologia e da sustentabilidade, há um desafio humano importante: atrair, reter e desenvolver a próxima geração de profissionais de contabilidade. Textos da IFAC e estudos da ACCA sobre o futuro da profissão apontam preocupações com a imagem da carreira – muitas vezes percebida como “tradicional” ou pouco inovadora – e defendem a necessidade de “rebranding”, mostrando o impacto real que a contabilidade pode ter em transparência, combate à informalidade, integridade dos mercados e desenvolvimento econômico.

O Contador do Futuro

Essa reconfiguração do papel do contador se traduz em um conjunto de competências novas (ou, pelo menos, mais enfatizadas) para quem está se formando agora. Estudos reforçam que o profissional da área precisa combinar sólida base técnica com capacidades digitais, pensamento crítico e habilidades de comunicação. Relatórios da IFAC e da ACCA também destacam a importância de literacia de dados (análise, visualização, uso de ferramentas como Excel avançado, linguagem de programação e BI), compreensão de sistemas (ERPs, soluções em nuvem, integrações de dados) e entendimento de riscos de cibersegurança e privacidade, sobretudo em ambientes que lidam com grande volume de informações sensíveis.

Ao lado disso, habilidades socioemocionais tornam-se centrais. Consultorias e entidades profissionais insistem que, em um mundo em que a parte mecânica da contabilidade tende a ser automatizada, ganha relevância a capacidade de trabalhar em equipes multidisciplinares, dialogar com gestores de diferentes áreas, explicar impactos contábeis de forma acessível e tomar decisões em contextos ambíguos. O contador deixa de ser apenas alguém que “fecha números” e passa a ser alguém que ajuda a organização a entender o que esses números significam e quais caminhos são mais consistentes com sua estratégia e seus valores.

Conclusão

Em síntese, o futuro da contabilidade não é apenas uma atualização tecnológica de rotinas existentes. Ele envolve uma redefinição mais profunda do propósito da profissão: de registrar o que aconteceu para também antecipar riscos, apoiar decisões e dar visibilidade a impactos que antes ficavam fora das demonstrações tradicionais. Em um mundo em que confiança, transparência e responsabilidade socioambiental se tornam ativos escassos, a contabilidade pode assumir um papel central na construção de mercados mais justos, eficientes e sustentáveis.

Para estudantes e jovens profissionais, isso significa que a pergunta não é só em que área da contabilidade quero trabalhar? (auditoria, controladoria, fiscal, consultoria) mas também “que tipo de contabilidade quero praticar?”. A resposta passa por desenvolver competências técnicas robustas, abraçar a tecnologia sem perder o senso crítico e entender que, por trás de cada débito e crédito, há decisões reais que afetam empresas, pessoas e o planeta.

 

Referências

  • ACCA. Technology, innovation and the future of accounting; Finance evolution: embracing the future of finance and technology.accaglobal.com+1
  • AAT Comment. The future of accounting: 11 big shifts on the horizon.AAT Comment
  • IFAC. The Future of Accounting; Digital transformation and the role of accounting and finance professionals.IFAC+1
Autoria de: Isadora Duarte, membro do departamento de Research & Development

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Portugal e a Aventura da Emigração

Portugal é, para muitos jovens, um país cheio de atrações: bom clima, qualidade de vida e um forte sentido de pertença. No entanto, na altura de entrar no mercado de trabalho, essa visão positiva colide com uma realidade menos animadora. A falta de empregabilidade, os salários baixos, a precariedade e a dificuldade em construir um futuro estável levam cada vez mais portugueses a olhar para a emigração não como uma escolha de aventura, mas como uma necessidade. Assim, sair do país continua a ser, para muitos, uma forma de procurar melhores oportunidades profissionais, maior valorização do trabalho e melhores condições de vida. Neste contexto, importa perceber porque é que tantos portugueses continuam a emigrar e quais são os principais destinos escolhidos por quem decide partir.

A falta de mão de obra em Portugal deve-se a vários fatores que se têm vindo a agravar. Por um lado, o envelhecimento da população e a baixa natalidade fazem com que haja menos pessoas em idade ativa. Por outro, muitos jovens, principalmente entre os 20 e 35 anos — especialmente qualificados — continuam a emigrar à procura de melhores oportunidades, o que reduz ainda mais a disponibilidade de trabalhadores no país. Além disso, em alguns setores, as condições de trabalho não são suficientemente atrativas. Salários baixos, pouca estabilidade e exigência elevada acabam por afastar muitos trabalhadores, a par de um desajuste, em alguns casos, entre as qualificações disponíveis e aquilo que as empresas procuram.

Perante este cenário, torna-se essencial procurar soluções que tornem o mercado de trabalho mais atrativo e equilibrado. A melhoria dos salários, das condições de trabalho e da estabilidade profissional pode ajudar não só a reter trabalhadores, mas também a incentivar o regresso de quem emigrou. Ao mesmo tempo, investir na formação e requalificação é fundamental para aproximar as competências das pessoas das necessidades das empresas.  A atração de trabalhadores estrangeiros, a simplificação de processos de contratação e o incentivo à inovação e modernização das empresas surgem também como medidas importantes, contribuindo para tornar o mercado de trabalho mais dinâmico, eficiente e capaz de responder às exigências atuais.

Verifica-se um crescimento dos fluxos de emigração para a Alemanha, França e Bélgica, continuando a tendência de concentração da emigração portuguesa na Europa Ocidental. Por outro lado, existe uma quebra acentuada das entradas de portugueses no Reino Unido, Canadá e Angola.

Historicamente Portugal é um país de emigrantes. A grande causa para explicar o êxodo dos portugueses é a procura por melhores condições de vida. Em períodos de maior sufoco, os portugueses emigram, e em períodos de maior otimismo social, a emigração cai. Os portugueses não emigram porque desejam, mas sim por necessidade. Por outras palavras, se encontrassem condições e oportunidades na sua terra, não as procurariam fora dela.

Os portugueses, em particular aqueles que vivem no estrangeiro, consideram que Portugal tem de deixar de ser visto apenas como um destino de férias, mas também como um país com muito potencial. O tempo com familiares e amigos não pode servir só para matar saudades, mas também para os espicaçar a exigir mais aos governos e classe política no geral. Quem todos os dias tem contacto com uma realidade que também poderia existir em Portugal não se deve resignar à condição dicotómica de que ou tem Portugal ou tem uma vida digna.

Há uma componente cultural nos dados da emigração. Portugal sempre foi um país de ‘aventureiros’, pelo que perante as dificuldades, os portugueses fazem-se à vida. O facto de a diáspora portuguesa ser tão grande e vasta tem um significado profundo. Uma boa parte dos emigrantes, se pudesse voltar ao seu país mantendo o estilo de vida que tem no estrangeiro, não hesitaria em regressar. Pelo que, se permanece longe de casa, é porque tem motivos para tal. Cabe a Portugal tornar-se um país capaz de oferecer amplamente condições dignas a todos os portugueses, especialmente aos jovens.

Autoria de: Ana Rosa Silva, Enzo Komarov e Mariana Oliveira, membros do departamento de Research & Development