Portugal é, para muitos jovens, um país cheio de atrações: bom clima, qualidade de vida e um forte sentido de pertença. No entanto, na altura de entrar no mercado de trabalho, essa visão positiva colide com uma realidade menos animadora. A falta de empregabilidade, os salários baixos, a precariedade e a dificuldade em construir um futuro estável levam cada vez mais portugueses a olhar para a emigração não como uma escolha de aventura, mas como uma necessidade. Assim, sair do país continua a ser, para muitos, uma forma de procurar melhores oportunidades profissionais, maior valorização do trabalho e melhores condições de vida. Neste contexto, importa perceber porque é que tantos portugueses continuam a emigrar e quais são os principais destinos escolhidos por quem decide partir.
A falta de mão de obra em Portugal deve-se a vários fatores que se têm vindo a agravar. Por um lado, o envelhecimento da população e a baixa natalidade fazem com que haja menos pessoas em idade ativa. Por outro, muitos jovens, principalmente entre os 20 e 35 anos — especialmente qualificados — continuam a emigrar à procura de melhores oportunidades, o que reduz ainda mais a disponibilidade de trabalhadores no país. Além disso, em alguns setores, as condições de trabalho não são suficientemente atrativas. Salários baixos, pouca estabilidade e exigência elevada acabam por afastar muitos trabalhadores, a par de um desajuste, em alguns casos, entre as qualificações disponíveis e aquilo que as empresas procuram.
Perante este cenário, torna-se
essencial procurar soluções que tornem o mercado de trabalho mais atrativo e
equilibrado. A melhoria dos salários, das condições de trabalho e da
estabilidade profissional pode ajudar não só a reter trabalhadores, mas também
a incentivar o regresso de quem emigrou. Ao mesmo tempo, investir na formação e
requalificação é fundamental para aproximar as competências das pessoas das
necessidades das empresas. A atração de
trabalhadores estrangeiros, a simplificação de processos de contratação e o
incentivo à inovação e modernização das empresas surgem também como medidas
importantes, contribuindo para tornar o mercado de trabalho mais dinâmico,
eficiente e capaz de responder às exigências atuais.
Verifica-se um crescimento dos fluxos
de emigração para a Alemanha, França e Bélgica, continuando a tendência de
concentração da emigração portuguesa na Europa Ocidental. Por outro lado,
existe uma quebra acentuada das entradas de portugueses no Reino Unido, Canadá
e Angola.
Historicamente Portugal é um país de
emigrantes. A grande causa para explicar o êxodo dos portugueses é a procura
por melhores condições de vida. Em períodos de maior sufoco, os portugueses
emigram, e em períodos de maior otimismo social, a emigração cai. Os portugueses
não emigram porque desejam, mas sim por necessidade. Por outras palavras, se
encontrassem condições e oportunidades na sua terra, não as procurariam fora
dela.
Os portugueses, em particular aqueles
que vivem no estrangeiro, consideram que Portugal tem de deixar de ser visto
apenas como um destino de férias, mas também como um país com muito potencial.
O tempo com familiares e amigos não pode servir só para matar saudades, mas
também para os espicaçar a exigir mais aos governos e classe política no geral.
Quem todos os dias tem contacto com uma realidade que também poderia existir em
Portugal não se deve resignar à condição dicotómica de que ou tem Portugal ou tem
uma vida digna.
Há uma componente cultural nos dados
da emigração. Portugal sempre foi um país de ‘aventureiros’, pelo que perante
as dificuldades, os portugueses fazem-se à vida. O facto de a diáspora
portuguesa ser tão grande e vasta tem um significado profundo. Uma boa parte
dos emigrantes, se pudesse voltar ao seu país mantendo o estilo de vida que tem
no estrangeiro, não hesitaria em regressar. Pelo que, se permanece longe de
casa, é porque tem motivos para tal. Cabe a Portugal tornar-se um país capaz de
oferecer amplamente condições dignas a todos os portugueses, especialmente aos
jovens.
Autoria de: Ana Rosa Silva, Enzo Komarov e Mariana Oliveira, membros do departamento de Research & Development
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