Imagina que acordas de manhã e, antes de sequer pores os pés no chão, já tens o telemóvel na mão a fazer scroll. Trinta segundos aqui, um minuto ali, e de repente passaram duas horas. Não é falta de força de vontade, é engenharia. As plataformas foram desenhadas ao milímetro para prender o teu cérebro num loop de dopamina do qual é quase impossível sair. A geração que cresceu com o TikTok pode não conseguir terminar um livro, uma conversa ou um pensamento. E o pior? Ninguém percebeu quando isso aconteceu.
Atualmente, cerca de 63,9% da população mundial usa redes sociais, com uma média de 2 horas e 21 minutos de utilização diária, o equivalente a 14% de todo o tempo que passamos acordados. Sem nos apercebermos, com apenas 2 horas por dia perdemos cerca de 5 anos de vida. Com 4 horas, falamos de 10 anos. Com 8 horas diárias, falamos de 20 anos inteiros. Não de uma vez, não de forma visível, mas roubados aos poucos, 30 segundos de cada vez, enquanto fazes scroll. É uma realidade perturbadora, e que se torna cada vez mais comum.
E a culpa é nossa? A resposta é ambígua. Somos nós que tomamos as decisões no fim do dia, mas as redes sociais foram desenhadas precisamente para tornar essas decisões impossíveis de tomar livremente. A máquina funciona através de vários mecanismos calculados: o scroll infinito aliado ao algoritmo de retenção entrega conteúdo personalizado sem fim; as notificações criam uma sensação de urgência constante; os likes, comentários, novas trends e publicações de influencers mantêm-nos presos à necessidade de saber tudo agora. Transformaram seguidores e likes numa moeda de validação social vazia, onde o valor de uma pessoa passou a ser medido por números num ecrã em vez de por quem realmente é.
Mas o pior nem é o tempo perdido.
São os danos reais causados à saúde mental e cognitiva. Em 2004, a capacidade
de foco humana era de cerca de 2 minutos e 30 segundos. Em 2021, caiu para 47
segundos. Em 2026, o número deverá ser ainda mais reduzido. Problemas de
concentração, ansiedade, depressão, baixa autoestima, isolamento social, perda
de prazer em atividades antes prazerosas e dificuldade na tomada de decisões
simples são realidades que já consideramos devastadoras hoje. Daqui a alguns
anos podem ser apocalípticas: uma sociedade com distúrbios mentais
generalizados, incapaz de produzir, de se relacionar e de funcionar de forma
minimamente saudável.
As novas gerações estão cada vez
mais presas à tecnologia, e a crescente vaga de inteligência artificial só veio
agravar a situação. A capacidade de estruturar o raciocínio e o pensamento
crítico está a diminuir de forma acelerada. Estamos a caminhar para uma
sociedade que não pensa, que reage por impulso e que vive completamente
controlada por sistemas que nunca foram desenhados para o seu bem.
A boa notícia é que o cérebro é
plástico, adapta-se, e o que foi treinado para um lado pode ser treinado para o
outro. A higiene digital começa nos pequenos passos: desativar notificações não
essenciais, colocar o telemóvel fora do campo de visão, ativar o modo de escala
de cinzentos e definir limites de tempo de ecrã. A nível pessoal, técnicas como
o método Pomodoro, o exercício regular, o sono adequado e a meditação são
ferramentas comprovadas para recuperar o controlo. E a solução mais complexa,
mas talvez a mais urgente: uma reestruturação profunda do sistema de ensino que
prepare os jovens para desenvolver as capacidades cognitivas que de outra forma
perderão para sempre.
Deixo no final deste artigo um apelo. Não como escritor, mas como membro desta sociedade: o que está em jogo não é só a nossa produtividade nem o nosso tempo livre. É a nossa capacidade de pensar, de sentir e de ser humanos. E se não agirmos agora, coletivamente e com urgência, não vamos perceber o momento exato em que deixámos de conseguir fazê-lo.
Referências
1. Baumgartner, S. E., van der Schuur,
W. A., Lemmens, J. S., & te Poel, F. (2025). Blocking mobile internet on
smartphones improves sustained attention. PNAS Nexus, 4(2).
https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgaf017
2. Kemp, S. (2025, fevereiro 4). Digital
2025: Global overview report. DataReportal.
https://datareportal.com/reports/digital-2025-global-overview-report
3. Mark, G. (2023, fevereiro). Why
our attention spans are shrinking [Podcast episode]. In K. Mills
(Host), Speaking of Psychology. American Psychological Association.
https://www.apa.org/news/podcasts/speaking-of-psychology/attention-spans
4. Observador. (2026, fevereiro
15). Investigação alerta para impacto de vídeos curtos no desenvolvimento
cognitivo de crianças. https://observador.pt/2026/02/15/investigacao-alerta-para-impacto-de-videos-curtos-no-desenvolvimento-cognitivo-de-criancas
5. Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain drain: The mere presence of one's own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140–154. https://doi.org/10.1086/691462
Autoria de: Tomás Antunes, coordenador do departamento de Marketing
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