quarta-feira, 10 de junho de 2026

É preciso sair do interior para ver o interior

      O êxodo rural constitui um dos fenómenos socioeconómicos mais marcantes da história contemporânea portuguesa. Desde meados do século XX, Portugal tem assistido a uma deslocação progressiva da população das zonas rurais para os centros urbanos, impulsionada por profundas transformações na economia, no mercado de trabalho e nas condições de vida. Embora este movimento tenha contribuído para o crescimento das cidades e para a modernização da estrutura produtiva, gerou fortes desequilíbrios territoriais, com impacto direto na coesão social e na sustentabilidade das regiões do interior.

      A principal causa do êxodo rural está na transformação do modelo produtivo agrícola. A mecanização e a concentração fundiária reduziram significativamente a necessidade de mão de obra, tornando o setor menos capaz de fixar população. Em paralelo, a expansão da indústria e dos serviços nas áreas urbanas criou oportunidades de emprego mais diversificadas, estáveis e melhor remuneradas. Este processo foi agravado pela persistente carência de infraestruturas essenciais nas zonas rurais, nomeadamente transportes, serviços de saúde, educação e conectividade digital, reforçando o isolamento destas regiões e incentivando a migração.

      Para além dos fatores económicos, o êxodo rural também se explica por mudanças nas aspirações individuais. A urbanização passou a ser associada à modernidade, ao progresso e à mobilidade social, enquanto o meio rural foi progressivamente percecionado como menos dinâmico e com menores oportunidades. Esta alteração de perceção teve um papel relevante na intensificação dos fluxos migratórios para os centros urbanos.

      As consequências deste fenómeno são profundas: envelhecimento demográfico, perda de capital humano, abandono de recursos agrícolas e ambientais e agravamento das desigualdades regionais. Estes efeitos comprometem a coesão territorial e aumentam a pressão sobre as políticas públicas, exigindo uma resposta integrada entre Estado e setor privado.

      Do lado empresarial, a revitalização do interior pode passar pela criação de atividades economicamente viáveis e tecnologicamente intensivas. A modernização da agricultura através de tecnologias digitais, automação e sistemas de precisão permite aumentar a produtividade e tornar o setor mais atrativo para novas gerações. Em simultâneo, a valorização de recursos locais, através do turismo sustentável e da exploração de cadeias de valor ligadas ao território, pode contribuir para diversificar a base económica destas regiões.

      Contudo, a atração e fixação de população depende também de condições estruturais. O trabalho remoto, potenciado pela digitalização, permite reduzir a dependência da localização geográfica, mas exige infraestruturas robustas de conectividade, como fibra ótica e redes 5G. Sem estas condições, a competitividade do interior permanece limitada.

      A estas medidas somam-se políticas públicas orientadas para a redução das assimetrias regionais. Incentivos fiscais à fixação de empresas e trabalhadores, investimento em mobilidade e reforço das ligações entre territórios são fundamentais para reduzir os custos de oportunidade associados à interioridade. Programas de financiamento público podem desempenhar um papel relevante na criação destas condições, desde que aplicados de forma estratégica.

      Em síntese, o êxodo rural em Portugal resulta da interação entre fatores económicos, sociais e culturais. A sua reversão exige uma estratégia integrada que combine inovação, investimento público e incentivos económicos, de forma a tornar o interior uma opção competitiva. O desafio não é replicar os grandes centros urbanos, mas sim criar condições para que viver no interior não implique abdicar de oportunidades. Só assim será possível promover um desenvolvimento territorial mais equilibrado e sustentável.


Autoria de: Ana Rosa Silva e Matilde Lopes, membros do departamento de Research & Development

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Liberdade digital: até onde vai o sonho do teletrabalho?

Introdução

    Quem não quer trabalhar com vista para a praia em Bali? Poder ter flexibilidade de horários para dar mais tempo à família? Ou até mesmo poder viajar por todos os países no mundo sem o problema do escritório num local fixo? Diria que este é o sonho idealizado por muitas pessoas hoje em dia, desde jovens que acreditam que o trabalho é uma 'prisão', a pais e mães que querem dedicar mais tempo aos filhos para viver mais tranquilamente.

Dados estatísticos

    Cada vez mais nos dias de hoje o trabalho remoto tem vindo a crescer. Essencialmente desde a pandemia, em 2020, foi algo bastante usado para preservar a saúde comunitária. Desde então muitas empresas mantiveram até agora esta prática. 

    Em 2025, foi realizado um estudo pelo Gi Group em parceria com a Worx, que destaca que 21.8% da população portuguesa empregada trabalha à distância (1,15 milhões de portugueses). Dentro destas pessoas, 21.9% trabalha exclusivamente em casa, enquanto 41.7% em regime híbrido (uns dias apenas). Evidencia-se o facto de 56% dos trabalhadores preferir a opção híbrida, pois permite uma maior flexibilidade de horários.

Vantagens

    Sem dúvida que a principal vantagem é a possibilidade de trabalhar a partir de qualquer parte do mundo, quase como se estivesse de férias. Claro que sem o stress habitual da rotina nas cidades, a produtividade aumenta bastante. Com a sensação de esgotamento diário e rotineiro é muito mais difícil manter o foco no trabalho. Inclusive, com maior flexibilidade de horários permite um melhor desempenho de tarefas, podendo construir o próprio horário conforme for mais prático. Por fim, a preocupação com o meio ambiente também é algo muito debatido e, sem as deslocações diárias ao escritório, reduzem-se as emissões de carbono.

Desvantagens

    Como nem tudo é perfeito, o trabalho remoto também é visto como prejudicial para a produtividade dos trabalhadores, o que acaba por ser um ponto ambíguo  que carece da análise individual de cada um. Com isto, o trabalho em equipa é muito afetado, provocando uma diminuição do sentimento de pertença dos colaboradores, também como maior dificuldade na integração de novos trabalhadores. Assim, também se verifica um enfraquecimento da cultura organizacional que é mais dificilmente passada remotamente 

Conclusão

    Portanto, se o trabalho remoto é algo que gostarias de ter presente na tua vida, acredita que há muitas empresas nos dias de hoje a fazê-lo e de maneiras diferentes. 

    Procura pela oportunidade que mais se adequa a ti!


Fontes

Executive Digest(2025, Outubro 14). Teletrabalho em números: 1,15 milhões de portugueses trabalham à distância. O que mudou desde a pandemia e o que ainda vem aí?. https://executivedigest.sapo.pt/teletrabalho-em-numeros-115-milhoes-de-portugueses-trabalham-a-distancia-o-que-mudou-desde-a-pandemia-e-o-que-ainda-vem-ai/

Robert Walters(2023, Junho 12). 5 razões pelas quais as empresas devem apoiar o trabalho remoto. https://www.robertwalters.pt/insights/conselhos-de-contratacao/blog/5-razoes-implementar-trabalho-remoto.html


Autoria de: Mariana Oliveira, membro do departamento de Research & Development

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Desenhado para Te Prender

Imagina que acordas de manhã e, antes de sequer pores os pés no chão, já tens o telemóvel na mão a fazer scroll. Trinta segundos aqui, um minuto ali, e de repente passaram duas horas. Não é falta de força de vontade, é engenharia. As plataformas foram desenhadas ao milímetro para prender o teu cérebro num loop de dopamina do qual é quase impossível sair. A geração que cresceu com o TikTok pode não conseguir terminar um livro, uma conversa ou um pensamento. E o pior? Ninguém percebeu quando isso aconteceu.

Atualmente, cerca de 63,9% da população mundial usa redes sociais, com uma média de 2 horas e 21 minutos de utilização diária, o equivalente a 14% de todo o tempo que passamos acordados. Sem nos apercebermos, com apenas 2 horas por dia perdemos cerca de 5 anos de vida. Com 4 horas, falamos de 10 anos. Com 8 horas diárias, falamos de 20 anos inteiros. Não de uma vez, não de forma visível, mas roubados aos poucos, 30 segundos de cada vez, enquanto fazes scroll. É uma realidade perturbadora, e que se torna cada vez mais comum.

E a culpa é nossa? A resposta é ambígua. Somos nós que tomamos as decisões no fim do dia, mas as redes sociais foram desenhadas precisamente para tornar essas decisões impossíveis de tomar livremente. A máquina funciona através de vários mecanismos calculados: o scroll infinito aliado ao algoritmo de retenção entrega conteúdo personalizado sem fim; as notificações criam uma sensação de urgência constante; os likes, comentários, novas trends e publicações de influencers mantêm-nos presos à necessidade de saber tudo agora. Transformaram seguidores e likes numa moeda de validação social vazia, onde o valor de uma pessoa passou a ser medido por números num ecrã em vez de por quem realmente é.

Mas o pior nem é o tempo perdido. São os danos reais causados à saúde mental e cognitiva. Em 2004, a capacidade de foco humana era de cerca de 2 minutos e 30 segundos. Em 2021, caiu para 47 segundos. Em 2026, o número deverá ser ainda mais reduzido. Problemas de concentração, ansiedade, depressão, baixa autoestima, isolamento social, perda de prazer em atividades antes prazerosas e dificuldade na tomada de decisões simples são realidades que já consideramos devastadoras hoje. Daqui a alguns anos podem ser apocalípticas: uma sociedade com distúrbios mentais generalizados, incapaz de produzir, de se relacionar e de funcionar de forma minimamente saudável.

As novas gerações estão cada vez mais presas à tecnologia, e a crescente vaga de inteligência artificial só veio agravar a situação. A capacidade de estruturar o raciocínio e o pensamento crítico está a diminuir de forma acelerada. Estamos a caminhar para uma sociedade que não pensa, que reage por impulso e que vive completamente controlada por sistemas que nunca foram desenhados para o seu bem.

A boa notícia é que o cérebro é plástico, adapta-se, e o que foi treinado para um lado pode ser treinado para o outro. A higiene digital começa nos pequenos passos: desativar notificações não essenciais, colocar o telemóvel fora do campo de visão, ativar o modo de escala de cinzentos e definir limites de tempo de ecrã. A nível pessoal, técnicas como o método Pomodoro, o exercício regular, o sono adequado e a meditação são ferramentas comprovadas para recuperar o controlo. E a solução mais complexa, mas talvez a mais urgente: uma reestruturação profunda do sistema de ensino que prepare os jovens para desenvolver as capacidades cognitivas que de outra forma perderão para sempre.

Deixo no final deste artigo um apelo. Não como escritor, mas como membro desta sociedade: o que está em jogo não é só a nossa produtividade nem o nosso tempo livre. É a nossa capacidade de pensar, de sentir e de ser humanos. E se não agirmos agora, coletivamente e com urgência, não vamos perceber o momento exato em que deixámos de conseguir fazê-lo.

Referências

1.      Baumgartner, S. E., van der Schuur, W. A., Lemmens, J. S., & te Poel, F. (2025). Blocking mobile internet on smartphones improves sustained attention. PNAS Nexus, 4(2). https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgaf017

2.      Kemp, S. (2025, fevereiro 4). Digital 2025: Global overview report. DataReportal. https://datareportal.com/reports/digital-2025-global-overview-report

3.      Mark, G. (2023, fevereiro). Why our attention spans are shrinking [Podcast episode]. In K. Mills (Host), Speaking of Psychology. American Psychological Association. https://www.apa.org/news/podcasts/speaking-of-psychology/attention-spans

4.      Observador. (2026, fevereiro 15). Investigação alerta para impacto de vídeos curtos no desenvolvimento cognitivo de crianças. https://observador.pt/2026/02/15/investigacao-alerta-para-impacto-de-videos-curtos-no-desenvolvimento-cognitivo-de-criancas

5.      Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain drain: The mere presence of one's own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140–154. https://doi.org/10.1086/691462

Autoria de: Tomás Antunes, coordenador do departamento de Marketing 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Impacto da Saúde Mental na Produtividade

          E se o maior inimigo da produtividade não fosse a distração, a falta de organização ou a gestão do tempo, mas sim a saúde mental? Nos últimos anos, as perturbações mentais dispararam a nível global, afetando hoje 1 em cada 7 pessoas no mundo. Em Portugal, metade da população reporta estar em stress elevado. Os dados são claros: a saúde mental não é um tema de bem-estar pessoal isolado, é um fator com impacto direto na forma como trabalhamos, produzimos e vivemos.

O estado em que estamos


Segundo a OMS, mais de um milhar de milhão de pessoas no mundo vivem com perturbações mentais. A ansiedade e a depressão são as condições mais prevalentes, e as mulheres são as mais afetadas. Nos países de alto rendimento, mais de 50% das pessoas que precisam de cuidados de saúde mental recebem-nos, contra apenas 10% nos países de baixo rendimento. Este dado é crucial para perceber onde está o verdadeiro problema: não é só a prevalência, é a falta de acesso ao tratamento.


O que está a causar isto?


O uso excessivo de redes sociais é um dos fatores mais documentados. Jovens que passam mais de 3 horas diárias em plataformas digitais têm um risco 30% maior de desenvolver depressão, e o excesso de redes sociais está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens. O ambiente digital cria comparação social constante, expõe a padrões de vida irreais, potencia o cyberbullying e gera dependência dopaminérgica através de notificações, scrolls e likes, com impacto direto na qualidade do sono.

O cérebro humano é biologicamente programado para conexão social, mas a vida moderna tem empurrado as pessoas para dinâmicas cada vez mais individualistas. Vínculos superficiais e relações exclusivamente digitais substituem a interação presencial, contribuindo diretamente para os níveis crescentes de ansiedade e depressão.

O stress crónico é outro fator central. Pressão financeira, excesso de exigência profissional e incerteza sobre o futuro são tensões para as quais o cérebro humano não está preparado para sustentar de forma contínua, sem consequências.

Vale ainda notar um paradoxo relevante: a crescente patologização de emoções normais pode ter o efeito inverso ao esperado. A ansiedade é uma resposta humana natural, problemática apenas quando persistente e não tratada. Medicação sem acompanhamento não resolve a causa. Perceber o que está por baixo do sintoma é insubstituível, e esse passo continua a ser negligenciado em larga escala.


O custo económico


O impacto na economia é inegável. A OMS estima que se perdem 12 mil milhões de dias de trabalho por ano por causa da depressão e ansiedade, com um custo de 1 bilião de dólares em produtividade perdida anualmente.

Há dois fenómenos a distinguir: absentismo e presentismo. Trabalhadores com saúde mental fraca faltam quase 5 vezes mais do que os restantes colegas, o que só nos EUA representa cerca de 47,6 mil milhões de dólares por ano. O presentismo, porém, é o fenómeno mais subestimado: um colaborador com depressão não tratada apresenta uma redução de 35% na produtividade, e estudos indicam que o presentismo pode custar até 10 vezes mais do que o absentismo, precisamente porque é invisível.

Os próprios trabalhadores reconhecem o impacto: 34% sentiram a sua produtividade prejudicada pela saúde mental no último ano, 48% já abandonaram ou consideraram abandonar um emprego por razões psicológicas, e 60% reportam sentir-se emocionalmente desligados do trabalho.


A solução também tem números


Resolver este problema não é economicamente inviável, bem pelo contrário. Trabalhadores psicologicamente saudáveis são, em média, 13% mais produtivos. A mudança começa em dois níveis: individual e organizacional. A nível pessoal, práticas como exercício regular, sono adequado, limitação do tempo de ecrã e procura de apoio psicológico preventivo, e não apenas em crise, têm impacto direto e documentado no bem-estar mental. A nível organizacional, as empresas têm ferramentas concretas ao seu dispor: programas de apoio psicológico, flexibilidade laboral, formação de líderes para identificar sinais de burnout, e uma cultura que normalize falar de saúde mental sem estigma. O ponto crítico é a prevenção. Tratar o problema depois de instalado é sempre mais caro, mais longo e menos eficaz do que criar as condições para que não apareça.

A OMS estima um ROI de 400%: cada dólar investido em saúde mental gera 4 dólares de retorno. Um estudo da Deloitte com empregadores canadianos encontrou retornos médios de 1,62 dólares por cada dólar investido, com casos a ultrapassar os 10 dólares de retorno.

Estes dados são ainda provavelmente subestimados, pois medem sobretudo impactos individuais e raramente captam os efeitos em cadeia sobre equipas, cultura organizacional e resultados coletivos.

A saúde mental pode ser, nos tempos que correm, o instrumento de produtividade mais subutilizado nas organizações. Prestar-lhe mais atenção não é só uma questão de bem-estar. É também uma das decisões mais racionais que uma empresa ou um indivíduo pode tomar.

 

Referências


1. World Health Organization. (2024). Mental health atwork. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work
2. Pan American Health Organization. (2025). More than one billion people living with mental healthconditions. https://www.paho.org/pt/noticias/2-9-2025-mais-um-bilhao-pessoas-vivem-com-condicoes-saude-mental-servicos-precisam
3. Marktest & Medicare. (2025). Saúde Mental Portugal 2025. https://www.medicare.pt/mais-saude/prevencao/estudo-marktest-medicare-saude-mental-2025
4. Instituto Cactus & AtlasIntel, citado por Veja Saúde. (2024). Redes sociais e ansiedade em jovens. https://veja.abril.com.br/saude/excesso-de-redes-sociais-esta-associado-a-45-dos-casos-de-ansiedade-em-jovens
5. Witters, D., & Agrawal, S. (2022). The economic costof poor employee mental health. Gallup. https://www.gallup.com/workplace/404174/economic-cost-poor-employee-mental-health.aspx
6. Meditopia for Work. (2026). Workplace mental healthstatistics for 2026. https://meditopia.com/en/forwork/articles/workplace-mental-health-statistics
7. McQuillen, B. (2026). Mental health benefits ROI. Ignite HCM. https://www.ignitehcm.com/blog/mental-health-benefits-roi-measuring-the-business-impact-of-wellness-investment
8. National Alliance on Mental Illness. (2024). 2024 NAMI workplace mental health poll. https://www.nami.org/research/publications-reports/survey-reports/the-2024-nami-workplace-mental-health-poll
9. Spill. (2025). Workplace mental health statistics2025. https://www.spill.chat/mental-health-statistics/workplace-mental-health-statistics
10. Quest Behavioral Health. (2025). Mental healthaffects work: The productivity connection. https://questbehavioralhealth.com/mental-health-and-work-productivity/

Autoria de: Tomás Antunes, coordenador do departamento de Marketing 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Contabilidade do Futuro: Entre Tecnologia, Estratégia e Responsabilidade

Falar sobre o futuro da contabilidade é falar sobre muito mais do que lançamentos, demonstrações financeiras e cumprimento de normas. A profissão está no meio de uma transformação impulsionada por digitalização, inteligência artificial, novas exigências de transparência e pela pressão para que empresas assumam responsabilidade ambiental e social. Para quem está na universidade hoje, contabilidade deixa de ser apenas a “linguagem dos negócios” e passa a ser também a infraestrutura de confiança de uma economia cada vez mais digital, conectada e monitorada em tempo real.

Diversas entidades de referência como a IFAC (International Federation of Accountants), a ACCA (Association of Chartered Certified Accountants) e grandes consultoras como Deloitte, EY, KPMG e PwC convergem em uma mensagem: o papel do contador está mudando de registrador e “guardião do compliance” para analista de dados, parceiro de negócios e conselheiro estratégico. Em vez de gastar a maior parte do tempo em tarefas manuais e repetitivas, o profissional de contabilidade passa a atuar cada vez mais em interpretação de informações, avaliação de riscos, desenho de controles e suporte à tomada de decisão.

Accountant 2.0

A IFAC, por exemplo, discute a necessidade de “desagregar” contabilidade da figura tradicional do contador e repensar o modelo da profissão em um contexto em que automação, globalização e novas expectativas da sociedade exigem outras formas de atuação. Já relatórios da Deloitte sobre o futuro da profissão chegam a falar em um “Accountant 2.0”: alguém que domina tecnologia, dialoga com áreas de operações, estratégia e TI, e ajuda a traduzir o impacto contábil de decisões de negócio complexas. Esse movimento não elimina as bases técnicas da contabilidade, mas amplia o escopo e a responsabilidade do profissional.

Contabilidade e o Uso da Tecnologia

Um dos eixos mais visíveis dessa mudança é a combinação entre automação e inteligência artificial. Softwares de gestão, Enterprise Resource Planning em nuvem (para integração de dados de diferentes áreas), Robotic Process Automation (automação de processos) e ferramentas de leitura automática de documentos já assumem, em muitas empresas, atividades como conferência de notas fiscais, reconciliação de contas, classificação básica de lançamentos e etapas do fecho contábil. Pesquisas recentes destacam que a adoção de IA e automação na contabilidade tende a crescer rapidamente, mudando o tempo despendido em tarefas operacionais e abrindo espaço para funções mais analíticas e consultivas.

Relatórios da ACCA sobre tecnologia e futuro da contabilidade mostram que profissionais ao redor do mundo já percebem a digitalização como inevitável e que, ao mesmo tempo, isso representa também uma oportunidade para reposicionar a profissão. À medida que rotinas de compliance e reporte são automatizadas, cresce a demanda por contadores capazes de desenhar indicadores, analisar tendências, identificar riscos emergentes, atuando como um generalista de visão ampla, capazes de detectar problemas e encaminhar soluções apropriadas.

Paralelamente, o próprio modelo de reporte corporativo está mudando. Há uma tendência clara em direção a informações mais frequentes, digitais e comparáveis entre países: com taxonomias eletrônicas, relatórios em formato estruturado e maior integração entre dados contábeis, fiscais e regulatórios. Pesquisas da Universidade de Oxford sobre o futuro do relato corporativo e documentos da IFRS Foundation mostram como a criação do International Sustainability Standards Board (ISSB) e a publicação dos padrões IFRS S1 e S2 estão reformulando o que significa “prestar contas” ao mercado: já não se trata apenas de números financeiros tradicionais, mas também de riscos e oportunidades ligados à sustentabilidade.

Contabilidade e Sustentabilidade

Nesse novo cenário, contabilidade e sustentabilidade tornam-se cada vez mais interligadas. A agenda de relato climático e de riscos ESG (ambientais, sociais e de governança) avançou de forma significativa na última década, com um número crescente de empresas divulgando dados de emissões, metas de transição e impactos socioambientais. Embora haja debates políticos sobre o alcance dessas normas – inclusive tensões entre reguladores de diferentes jurisdições –o movimento geral aponta para maior integração entre informações financeiras e não financeiras. Para os profissionais de contabilidade, isso significa aprender a lidar com métricas que vão além de lucro, patrimônio e fluxo de caixa, incorporando indicadores de clima, capital humano e cadeias de valor.

Fragmentação Regulatória Global

Ao mesmo tempo, relatórios de organismos internacionais e da própria IFRS Foundation mostram que a convergência de normas contábeis e de sustentabilidade é também uma forma de tentar reduzir fragmentação regulatória e custos de reporte em um sistema financeiro global cada vez mais interconectado, mas sujeito a pressões políticas. O contador passa a atuar num ambiente em que precisa entender tanto IFRS quanto as novas normas de divulgação de sustentabilidade, além de regulamentos locais, exigências de supervisores de mercado e expectativas de investidores institucionais.

Além da tecnologia e da sustentabilidade, há um desafio humano importante: atrair, reter e desenvolver a próxima geração de profissionais de contabilidade. Textos da IFAC e estudos da ACCA sobre o futuro da profissão apontam preocupações com a imagem da carreira – muitas vezes percebida como “tradicional” ou pouco inovadora – e defendem a necessidade de “rebranding”, mostrando o impacto real que a contabilidade pode ter em transparência, combate à informalidade, integridade dos mercados e desenvolvimento econômico.

O Contador do Futuro

Essa reconfiguração do papel do contador se traduz em um conjunto de competências novas (ou, pelo menos, mais enfatizadas) para quem está se formando agora. Estudos reforçam que o profissional da área precisa combinar sólida base técnica com capacidades digitais, pensamento crítico e habilidades de comunicação. Relatórios da IFAC e da ACCA também destacam a importância de literacia de dados (análise, visualização, uso de ferramentas como Excel avançado, linguagem de programação e BI), compreensão de sistemas (ERPs, soluções em nuvem, integrações de dados) e entendimento de riscos de cibersegurança e privacidade, sobretudo em ambientes que lidam com grande volume de informações sensíveis.

Ao lado disso, habilidades socioemocionais tornam-se centrais. Consultorias e entidades profissionais insistem que, em um mundo em que a parte mecânica da contabilidade tende a ser automatizada, ganha relevância a capacidade de trabalhar em equipes multidisciplinares, dialogar com gestores de diferentes áreas, explicar impactos contábeis de forma acessível e tomar decisões em contextos ambíguos. O contador deixa de ser apenas alguém que “fecha números” e passa a ser alguém que ajuda a organização a entender o que esses números significam e quais caminhos são mais consistentes com sua estratégia e seus valores.

Conclusão

Em síntese, o futuro da contabilidade não é apenas uma atualização tecnológica de rotinas existentes. Ele envolve uma redefinição mais profunda do propósito da profissão: de registrar o que aconteceu para também antecipar riscos, apoiar decisões e dar visibilidade a impactos que antes ficavam fora das demonstrações tradicionais. Em um mundo em que confiança, transparência e responsabilidade socioambiental se tornam ativos escassos, a contabilidade pode assumir um papel central na construção de mercados mais justos, eficientes e sustentáveis.

Para estudantes e jovens profissionais, isso significa que a pergunta não é só em que área da contabilidade quero trabalhar? (auditoria, controladoria, fiscal, consultoria) mas também “que tipo de contabilidade quero praticar?”. A resposta passa por desenvolver competências técnicas robustas, abraçar a tecnologia sem perder o senso crítico e entender que, por trás de cada débito e crédito, há decisões reais que afetam empresas, pessoas e o planeta.

 

Referências

  • ACCA. Technology, innovation and the future of accounting; Finance evolution: embracing the future of finance and technology.accaglobal.com+1
  • AAT Comment. The future of accounting: 11 big shifts on the horizon.AAT Comment
  • IFAC. The Future of Accounting; Digital transformation and the role of accounting and finance professionals.IFAC+1
Autoria de: Isadora Duarte, membro do departamento de Research & Development

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Portugal e a Aventura da Emigração

Portugal é, para muitos jovens, um país cheio de atrações: bom clima, qualidade de vida e um forte sentido de pertença. No entanto, na altura de entrar no mercado de trabalho, essa visão positiva colide com uma realidade menos animadora. A falta de empregabilidade, os salários baixos, a precariedade e a dificuldade em construir um futuro estável levam cada vez mais portugueses a olhar para a emigração não como uma escolha de aventura, mas como uma necessidade. Assim, sair do país continua a ser, para muitos, uma forma de procurar melhores oportunidades profissionais, maior valorização do trabalho e melhores condições de vida. Neste contexto, importa perceber porque é que tantos portugueses continuam a emigrar e quais são os principais destinos escolhidos por quem decide partir.

A falta de mão de obra em Portugal deve-se a vários fatores que se têm vindo a agravar. Por um lado, o envelhecimento da população e a baixa natalidade fazem com que haja menos pessoas em idade ativa. Por outro, muitos jovens, principalmente entre os 20 e 35 anos — especialmente qualificados — continuam a emigrar à procura de melhores oportunidades, o que reduz ainda mais a disponibilidade de trabalhadores no país. Além disso, em alguns setores, as condições de trabalho não são suficientemente atrativas. Salários baixos, pouca estabilidade e exigência elevada acabam por afastar muitos trabalhadores, a par de um desajuste, em alguns casos, entre as qualificações disponíveis e aquilo que as empresas procuram.

Perante este cenário, torna-se essencial procurar soluções que tornem o mercado de trabalho mais atrativo e equilibrado. A melhoria dos salários, das condições de trabalho e da estabilidade profissional pode ajudar não só a reter trabalhadores, mas também a incentivar o regresso de quem emigrou. Ao mesmo tempo, investir na formação e requalificação é fundamental para aproximar as competências das pessoas das necessidades das empresas.  A atração de trabalhadores estrangeiros, a simplificação de processos de contratação e o incentivo à inovação e modernização das empresas surgem também como medidas importantes, contribuindo para tornar o mercado de trabalho mais dinâmico, eficiente e capaz de responder às exigências atuais.

Verifica-se um crescimento dos fluxos de emigração para a Alemanha, França e Bélgica, continuando a tendência de concentração da emigração portuguesa na Europa Ocidental. Por outro lado, existe uma quebra acentuada das entradas de portugueses no Reino Unido, Canadá e Angola.

Historicamente Portugal é um país de emigrantes. A grande causa para explicar o êxodo dos portugueses é a procura por melhores condições de vida. Em períodos de maior sufoco, os portugueses emigram, e em períodos de maior otimismo social, a emigração cai. Os portugueses não emigram porque desejam, mas sim por necessidade. Por outras palavras, se encontrassem condições e oportunidades na sua terra, não as procurariam fora dela.

Os portugueses, em particular aqueles que vivem no estrangeiro, consideram que Portugal tem de deixar de ser visto apenas como um destino de férias, mas também como um país com muito potencial. O tempo com familiares e amigos não pode servir só para matar saudades, mas também para os espicaçar a exigir mais aos governos e classe política no geral. Quem todos os dias tem contacto com uma realidade que também poderia existir em Portugal não se deve resignar à condição dicotómica de que ou tem Portugal ou tem uma vida digna.

Há uma componente cultural nos dados da emigração. Portugal sempre foi um país de ‘aventureiros’, pelo que perante as dificuldades, os portugueses fazem-se à vida. O facto de a diáspora portuguesa ser tão grande e vasta tem um significado profundo. Uma boa parte dos emigrantes, se pudesse voltar ao seu país mantendo o estilo de vida que tem no estrangeiro, não hesitaria em regressar. Pelo que, se permanece longe de casa, é porque tem motivos para tal. Cabe a Portugal tornar-se um país capaz de oferecer amplamente condições dignas a todos os portugueses, especialmente aos jovens.

Autoria de: Ana Rosa Silva, Enzo Komarov e Mariana Oliveira, membros do departamento de Research & Development

quarta-feira, 18 de março de 2026

As Competências Que Realmente Fazem A Diferença

    Existe uma ideia confortável, porém muito incompleta, que muitos de nós carregamos: saber fazer bem as coisas é suficiente. Principalmente no mundo académico, é fácil cair na falácia de que boas notas, trabalhos bem feitos e domínio de matérias é suficiente e o resto se alinha.

    Seja na universidade, no trabalho ou até no dia a dia, é normal acreditar que saber o que estamos a fazer chega, no entanto, há sempre aqueles momentos - como trabalhos de grupo, entrevistas de emprego ou até jantares com amigos e conversas difíceis - que nos fazem aperceber que não basta só saber, também a forma como lidamos com pessoas e situações é muito importante.

    Existe um conjunto de competências que até a uma altura relativamente recente, não recebia a atenção que merece, mas que está presente em quase todas as interações: na forma como nos comunicamos, como reagimos à pressão, como nos adaptamos quando as coisas não correm como esperado, e por aí vai… Chamamos-lhes de soft skills. E apesar do nome suave, o seu impacto é tudo menos leve.

    A distinção é conhecida, mas não muito interiorizada. Hard skills são habilidades técnicas adquiridas através de formação, cursos e experiência profissional - são previsíveis, ensináveis e avaliáveis. Por sua vez, as soft skills são habilidades interpessoais e subjetivas, e estão relacionadas com a personalidade e o comportamento: comunicar com clareza, liderança e colaboração, gerir conflitos, são todos ótimos exemplos destas habilidades. As primeiras são construídas com alguma previsibilidade, mas as segundas constroem-se com experiências, e, muitas vezes, com algum desconforto.

    O mais curioso é que as soft skills têm vindo a pesar mais. Em áreas, tais como as da nossa faculdade, onde o conhecimento mais técnico é bastante semelhante entre estudantes, o fator diferenciador raramente está no currículo – está na forma como alguém se expressa, gere o tempo sob pressão ou como reage a um erro – em coisas que várias vezes nos passam ao lado.

    Isto torna-se ainda mais evidente num mundo em evolução contínua, onde o mercado de trabalho também acaba por ser afetado por uma constante transformação. A rapidez com que se desenvolvem novas técnicas ou se deixam de usar outras, contrasta muito com a estabilidade das competências humanas – estas não se substituem facilmente, e por isso mesmo ganham valor.

    Podemos dizer que o ensino superior continua, em grande medida, focado mais na dimensão técnica – até porque é mais fácil ensinar e avaliar aquilo que é objetivo. Mas isso não invalida o facto de que muitas competências mais críticas para o futuro profissional de estudantes acabam por ficar fora do foco direto.

    O mais curioso é que não nos faltam oportunidades para desenvolver estas competências. Elas estão por todo o lado, só que raramente são apresentadas como tal. Num trabalho de grupo onde alguém tem de assumir liderança, numa apresentação em que é preciso parecer mais confiante do que nos sentimos ou também, por exemplo, numa associação académica onde gerir pessoas rapidamente deixa de ser teórico.

    Talvez é por isso que muitos estudantes terminam o curso com um currículo sólido, mas com dificuldades em explicar quem são para além das notas. Sabem o que aprenderam, mas não necessariamente como trabalham, como comunicam, como reagem. E essas são, cada vez mais, as perguntas que importam. E talvez aqui esteja o verdadeiro ponto cego: tratamos estas competências como um “extra” - algo que se desenvolve mais tarde, quando já houver tempo, experiência, contexto… No entanto, são estas competências que dão contexto ao que sabemos e tornam o conhecimento realmente útil.

    Nem sempre há uma forma clara de as avaliar ou medir. Mas, de forma quase inevitável, acabam por influenciar a forma como somos percebidos e as oportunidades que surgem. E, quando isso acontece, já não se trata apenas do que sabemos — mas de como escolhemos usar tudo o que aprendemos.

Autoria de: Enzo Komarov, membro do departamento de Research & Development

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Importância do associativismo académico

    A experiência universitária ganha uma nova dimensão quando decidimos envolver-nos no que acontece à nossa volta. No ISEG, é fácil perceber que há muito mais que aulas: existem associações, projetos e iniciativas que mostram a vida ativa e dinâmica no campus. Apesar disto, muitas vezes pensamos: “Será que isto também é para mim?”. A verdade é que o associativismo académico pode ser uma maneira de viver a universidade de forma mais completa, mais próxima das pessoas e ao que realmente acontece no campus. Neste artigo, queremos refletir sobre o papel do associativismo no ISEG. Vamos abordar desde o que significa participar de uma associação até o impacto que essa experiência pode ter no percurso académico e pessoal. Antes disso, é importante perceber o essencial: afinal, o que é o associativismo académico?

    O associativismo académico corresponde à participação dos estudantes em organizações criadas e geridas por eles, com objetivos culturais, sociais, desportivos ou de representação. Estas associações têm um papel relevante na vida universitária ao promover iniciativas, desenvolver projetos e criar oportunidades de envolvimento entre alunos. Embora algumas tenham processos de seleção mais exigentes ou procurem determinadas competências, existe uma grande variedade de grupos com diferentes níveis de compromisso e áreas de atuação. Assim, cada estudante pode encontrar um espaço que se enquadre nos seus interesses, disponibilidade e objetivos. Participar numa associação é uma forma de contactar com novas realidades, colaborar com outras pessoas e desenvolver competências que complementam o percurso académico.

    No ISEG, o associativismo proporciona oportunidades que não surgem apenas nas aulas. Mesmo dentro das áreas de gestão e economia, cada associação aborda temas diferentes, desde consultoria e finanças até empreendedorismo, impacto social, cultura ou desporto, permitindo que cada aluno explore o que mais lhe interessa. Para quem está no primeiro ano, estar numa associação pode ajudar a criar ligações e a sentir-se mais incluído num ambiente que, no início, pode parecer distante. Para quem já está mais avançado no curso, é uma oportunidade de aprofundar interesses, ganhar experiência em organização, comunicação ou gestão e participar em projetos que enriquecem o percurso académico.

    Uma das características mais marcantes do associativismo académico é a quantidade de aprendizagens que surgem de forma natural ao longo da participação. Ao colaborar em projetos, planear atividades ou trabalhar com colegas, desenvolvem-se habilidades que são essenciais tanto na vida académica como no futuro profissional. Aprende-se a comunicar de forma mais clara, a gerir tempo e prioridades, a lidar com imprevistos e a encontrar soluções quando algo não ocorre como previsto. Ganha-se autonomia, capacidade de adaptação e confiança para assumir responsabilidades.

    A hesitação em participar no associativismo académico é perfeitamente normal e totalmente válida! O receio de não saber o suficiente ou de não corresponder às expectativas pode ser intimidante, mas vale a pena lembrar que tudo tem uma primeira vez e que as associações existem precisamente como espaços de aprendizagem e crescimento. Mesmo que a experiência não seja perfeita, contribui sempre para o desenvolvimento pessoal. Informar‑se, falar com quem já participou e explorar sem medo pode ser o início de um grande caminho.

    Atualmente, experiências práticas têm um peso cada vez maior, muitas vezes superior ao das classificações ou médias. Assim, a participação no associativismo académico constitui uma mais‑valia para o currículo, graças ao seu potencial formativo e à preparação que proporciona aos estudantes. Ao promover o contacto com situações reais e com competências valorizadas no mercado de trabalho, o associativismo contribui para um perfil académico mais completo e diferenciado. Embora não garanta, por si só, o sucesso profissional, representa uma vantagem significativa face a percursos que não incluem este tipo de experiências.

    Para concluir, o associativismo académico não é obrigatório nem tem de ser seguido por todos, mas é uma grande oportunidade para conhecer pessoas, descobrir interesses, aprender coisas novas, desenvolver competências e também de sentir que a universidade é muito mais que aulas e avaliações.

Autoria de: Enzo Komarov e Matilde Lopes, membros do departamento de Research & Development

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Presidenciais 2026

    As presidenciais de 2026 desde sempre trouxeram insegurança e dúvida à população acerca de qual seria o candidato ideal. A presença de muitos candidatos levou os portugueses a duvidarem até quase ao final da campanha sobre quem eleger. Nas últimas semanas de campanha, houve apelos ao voto útil, as sondagens foram usadas como marionetes para aquisição de voto e, no fim, a única certeza que tínhamos era de que a ida à segunda volta seria inevitável. 

    Após a primeira volta das eleições presidenciais, apresentaram-se os resultados projetados pelas últimas sondagens da RTP. Com isto, foi realçado um panorama político que já é comum no globo e que já se vinha a vincar em Portugal em eleições legislativas, em que a extrema direita tem vindo a ganhar mais poder. Os eleitores de Ventura já tinham pré-definido que seria para ele o seu voto. Por outro lado, Seguro surpreendeu o país, pois a maioria dos seus eleitores só o escolheram no decorrer da última semana de campanha. No entanto, foi o candidato preferido dos portugueses, conquistando o pódio com aproximadamente 30% dos votos. O segundo lugar disputado entre André Ventura e João Cotrim Figueiredo foi ocupado pelo candidato apoiado pelo partido Chega, com cerca de 24% dos votos. A posição de André Ventura continua firme na escolha dos portugueses. Já o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, que esperava alcançar melhores resultados, anunciou uma “derrota pessoal”, tendo ficado em terceiro lugar, com cerca de 900 mil portugueses a imaginarem um novo Portugal. 

    O dualismo entre os centros políticos foi corrompido nestas presidenciais pela primeira vez. Marques Mendes teve o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo governo, ficando em quinto lugar no pódio, logo atrás de Gouveia e Melo. Numa visão espacial, Seguro foi o escolhido pela maioria do continente e da Região Autónoma dos Açores, Ventura foi o segundo mais votado e conquistou a Região Autónoma da Madeira e Marques Mendes foi apenas nomeado em 3 concelhos do continente. 

    Depois de 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa, presidente eleito nos seus dois mandatos com maioria absoluta, o país escolheu, pela segunda vez na história lusa, após 40 anos de decisões de primeira triagem, ir à segunda volta. Desta vez para disputar, no dia 8 de fevereiro, entre um socialista e um antissistema. O primeiro-ministro, em declarações dadas aos jornalistas, felicitou os candidatos da segunda volta, mas não mostrou apoio por nenhum deles. Luís Montenegro foi criticado pelo povo pela sua imparcialidade, pois acredita-se que, embora António José Seguro não seja da mesma cor partidária do líder do Partido Social Democrata, o candidato apresenta uma visão mais centrada e coerente com a do governo do que a de André Ventura, bastante extremista. Apesar de no PSD e na IL já existirem algumas declarações de voto a favor de Seguro por parte de alguns membros destes partidos, o apoio não é unânime e os líderes dos partidos continuam em silêncio. Por outro lado, a esquerda mostrou desde cedo o seu apoio a António José Seguro. 

    A questão que fica é: qual será o resultado do dia 8 de fevereiro? Acreditamos que quem votou em Seguro não mudará o seu voto, juntando-se na segunda volta os partidos de esquerda, numa tentativa de dar a vitória a Seguro. Quanto a Ventura, pensamos que os seus votos se manterão e aumentarão com parte da direita. A direita está dividida e possivelmente os eleitores de Cotrim e de Marques Mendes irão se repartir entre os dois candidatos. Relativamente aos votos de quem acreditava no Almirante Gouveia e Melo, é preciso esperar que este se posicione em relação a isso para se poder ter uma perspectiva de votos. Posteriormente à segunda volta, independentemente de qual for o candidato escolhido, todos sabemos que o Governo atual terá de conseguir governar com um Presidente não pertencente ao seu partido, o que poderá acarretar alguns obstáculos, dependendo dos assuntos e do Presidente eleito. 

    Por fim, no debate entre os dois candidatos à segunda volta, foram abordados diversos temas relevantes nos dias de hoje, por exemplo, a imigração, a revisão da constituição, a confusão do SNS e a posição que cada um pensa tomar relativamente ao caos do mundo político atual. Mais uma vez, vê-se que ambos mantêm o mesmo discurso e a mesma posição desde o início. António José Seguro reforça querer ser o presidente de todos os portugueses sem discriminação, que apoia a integridade humana com moderação e justiça firme. Já André Ventura critica o adversário por ser inseguro naquilo que transmite. Define-o ainda como alguém sem ideias e que pretende “agradar a todos”. No final do debate, Ventura volta ao seu discurso para os cidadãos que consideram que deve ser feita uma mudança no país e, com isso, quer “dar um abanão” e ser “a voz dos que não têm voz”. 

    Estas eleições presidenciais foram atípicas por diversas razões, no entanto cada um de nós tem o dever de refletir acerca de quem será o melhor representante para o nosso país. Apelamos a que na próxima semana e meia haja uma reflexão profunda para que os portugueses no dia 8 decidam o que querem para o seu Portugal.

Autoria de: Ana Rosa Silva e Mariana Oliveira, membros do departamento de Research & Development

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O Futuro das Finanças: Entre Dados, Tecnologia e Propósito

Introdução  

Falar sobre o futuro das finanças hoje é, ao mesmo tempo, falar sobre tecnologia, geopolítica, sustentabilidade e inclusão. A área financeira deixou de ser apenas um “departamento de números” para se tornar um espaço onde se cruzam decisões estratégicas, análise de dados em larga escala e debates sobre o papel social das empresas e das instituições financeiras. Para uma geração de estudantes que vai iniciar a carreira num contexto de inteligência artificial, fintechs e mudanças climáticas, entender essas transformações não é luxo – é quase uma questão de sobrevivência profissional. 

Esses temas não aparecem separados: tecnologia, geopolítica, sustentabilidade e inclusão são justamente as forças que explicam por que inteligência artificial, fintechs e as mudanças climáticas estão no centro do debate financeiro. Disputas geopolíticas redefinem cadeias de produção, comércio internacional e fluxos de capitais, o que pressiona governos e empresas a investir em novas infraestruturas digitais e em moedas e sistemas de pagamento mais ágeis. A agenda climática e de sustentabilidade transforma-se em risco financeiro concreto – seja por eventos extremos, seja por regulações de carbono e exigências de reporte ESG. Ao mesmo tempo, a busca por inclusão financeira orienta o desenho de muitas soluções de fintech e de IA aplicada a crédito, seguros e meios de pagamento, levantando a pergunta-chave: essas inovações estão apenas aumentando eficiência para quem já está dentro do sistema, ou realmente ampliando o acesso para quem sempre ficou de fora? 

Consultoras globais como Deloitte, McKinsey, PwC, KPMG e BCG discutem que a função financeira está em transição acelerada. Em vez de foco predominante em reportes históricos e controle de custos, a tendência é que a área atue como “parceira de negócio”, ajudando a formular cenários, precificar riscos e identificar onde realmente se cria valor dentro da organização. A Deloitte, por exemplo, argumenta que o “finance of the future” será construído sobre dados em tempo real, automação e uma visão muito mais integrada do negócio até 2030.  

Nesse contexto, o setor financeiro passa a funcionar como a parte analítica das organizações. Isso significa integrar informações que antes estavam dispersas – dados operacionais, comerciais, de clientes e de sustentabilidade – e transformá-las em decisões concretas: investir ou não num projeto, lançar ou não um novo produto, ajustar preços, renegociar contratos, redesenhar cadeias de suprimento. Não é coincidência que relatórios recentes sobre o papel do CFO no horizonte de 2030 descrevam o profissional como alguém que transite entre finanças, estratégia e tecnologia, assumindo um papel de liderança muito mais amplo do que anteriormente. 

Tecnologia e Inteligência Artificial 

Um dos motores mais visíveis dessa transformação é a inteligência artificial. A McKinsey estima que o uso de IA e analytics pode gerar até 1 trilhão de dólares em valor anual para o setor bancário global, seja por aumento de receita, seja por redução de custos e perdas. Na prática, isso significa algoritmos que avaliam risco de crédito em segundos, sistemas que identificam fraude em tempo real, modelos que recomendam produtos financeiros de forma personalizada e “assistentes” que automatizam uma parte relevante das tarefas rotineiras de finanças corporativas, como reconciliações, fechamentos e relatórios. 

Ao mesmo tempo, pesquisas sobre o estado da IA em 2024 mostram que o uso de modelos generativos está se consolidando, com empresas relatando ganhos concretos de produtividade e valor. Isso não elimina a necessidade de pessoas, mas muda profundamente o tipo de trabalho que elas vão fazer - tarefas repetitivas tendem a ser automatizadas, o que ganha importância é a capacidade de interpretar modelos, questionar resultados, combinar análises quantitativas com visão de negócio e tomar decisões sob incerteza. Junto com isso, surgem preocupações éticas: viés algorítmico, transparência, privacidade de dados e o risco de que a automação agrave desigualdades, inclusive entre países e grupos sociais. 

Sistema Financeiro Global 

Se olharmos para além das empresas, o próprio sistema financeiro global está se reconfigurando. O World Economic Forum comenta sobre o risco de fragmentação financeira: diferentes blocos econômicos adotando regras, moedas digitais e infraestruturas de mercado parcialmente incompatíveis entre si. Em cenários extremos, essa fragmentação poderia reduzir o PIB global em trilhões de dólares e elevar a inflação, dificultando coordenação em temas-chave como estabilidade financeira, regulação de criptoativos e fluxos de capitais.  

Paralelamente, a fronteira entre bancos tradicionais, fintechs, big techs e outros intermediários está cada vez mais difusa. O Banco Mundial, em relatório sobre fintechs e o futuro das finanças, mostra como a digitalização dos serviços e do dinheiro está ampliando o acesso a serviços financeiros, reduzindo custos de transação e criando modelos de negócio que operam acima das fronteiras nacionais, por exemplo, plataformas globais de pagamentos, carteiras digitais e crédito baseado em dados alternativos. O FMI também discute o tema das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), dos sistemas de pagamentos instantâneos e dos riscos associados a novos meios de pagamento, como stablecoins e outras inovações em e-money.  

Esse redesenho do sistema financeiro cria oportunidades e tensões. De um lado, fintechs e inovação tecnológica podem incluir populações antes excluídas do sistema bancário, especialmente em países em desenvolvimento, por meio de crédito digital, microfinanças via celular e modelos mais baratos de remessas internacionais. De outro, há o risco de concentração de poder em poucas plataformas, de novas formas de instabilidade e de uma competição regulatória entre países que fragilize padrões mínimos de proteção ao consumidor e de gestão de risco. Estudos do FMI apontam que a expansão das fintechs depende tanto de inovação quanto de um arcabouço regulatório inteligente, que equilibre estímulo à concorrência e preservação da estabilidade.  

Sustentabilidade e Inclusão Financeira 

Outro eixo central do futuro das finanças é a integração de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) nas decisões de investimento, crédito e gestão de riscos. Grandes consultoras e organismos como o World Economic Forum reforçam que a transição climática, a perda de biodiversidade e as desigualdades sociais já são, elas mesmas, riscos financeiros materiais. Instituições financeiras estão sendo pressionadas (por reguladores, investidores e sociedade civil) a medir e divulgar sua exposição a esses riscos, a rever carteiras intensivas em carbono e a financiar projetos que apoiem uma transição justa. 

Ao mesmo tempo, cresce a agenda de inclusão financeira: não basta entender somente o custo ambiental, é preciso garantir que o sistema financeiro não agrave desigualdades existentes. Nesse ponto, há convergência entre análises de Banco Mundial, FMI e várias consultoras: a combinação entre tecnologia e finanças pode, sim, ampliar o acesso a crédito, poupança, seguros e meios de pagamento a baixo custo, mas isso não é automático - depende de desenho regulatório, infraestrutura digital, educação financeira e cuidado para que modelos de risco baseados em dados não reproduzam discriminação histórica.  

Competências Relevantes 

Diante de tudo isso, uma questão inevitável aparece para quem está na universidade hoje: que tipo de competências o profissional de finanças do futuro precisa ter? A leitura cruzada de relatórios da Deloitte, McKinsey, PwC, KPMG e BCG aponta alguns padrões claros. Em primeiro lugar, cresce a importância da literacia de dados: não é mais suficiente dominar apenas Excel básico e contabilidade; espera-se familiaridade com análise de dados, visualização, noções de programação (Python, R, SQL) e ferramentas de business intelligence. 

Em segundo lugar, a visão de negócio torna-se indispensável. Profissionais de finanças precisarão entender profundamente modelos de receita, cadeias de valor, comportamento de clientes e dinâmica competitiva para traduzir números em estratégias. 

Em terceiro lugar, é preciso prestar atenção em regulação, risco e ética: cada vez mais comumente equipes de finanças dialogam com áreas jurídicas, de compliance e de tecnologia para garantir que modelos de IA, estruturas de capital e novos produtos estejam alinhados com normas cada vez mais complexas – de Basileia a regulamentações de dados e de sustentabilidade. 

Por fim, a dimensão humana e relacional não desaparece: pelo contrário, ganha peso. Em ambientes de incerteza estrutural – geopolítica, tecnológica, climática – a capacidade de trabalhar em equipes multidisciplinares, comunicar decisões de forma clara, negociar com diferentes stakeholders e lidar com ambiguidade é um diferencial. Consultoras têm insistido que as equipes de alto desempenho combinam competências quantitativas avançadas com empatia, adaptabilidade e capacidade de aprendizado contínuo.  

Conclusão 

Em resumo, o futuro das finanças não é apenas uma questão tecnológica. IA, automação, fintechs e moedas digitais são peças centrais do quebra-cabeça, mas elas se encaixam dentro de um cenário mais amplo de reconfiguração do sistema financeiro global, de pressão por sustentabilidade e de demanda social por inclusão. Para estudantes e jovens profissionais, isso significa que a pergunta “em que área de finanças eu quero trabalhar?” vem acompanhada de outra, igualmente importante: “que tipo de sistema financeiro eu quero ajudar a construir?”. A resposta passa por desenvolver competências técnicas sólidas, mas também por cultivar senso crítico, responsabilidade ética e abertura para colaborar em soluções que alinhem desempenho econômico, estabilidade e impacto social positivo. 


Autoria de: Isadora Duarte, membro do departamento de Research & Development